CRISTINA GUEDES + FRANCISCO VIEIRA DE CAMPOS (entrevista)
por Pedro Jordão e Susana Faria
Quais são os gestos fundamentais nos Bares da Margem Fluvial de Vila Nova de Gaia?
Cristina Guedes_ Começamos por dois volumes. Um onde tentamos explorar um sistema construtivo muito leve e muito fino com base na carlinga dos aviões ou dos barcos, que é o volume de serviços. É onde estão as infra-estruturas mais caras e, no caso de uma cheia, pode eventualmente ser removido. É um pouco essa ideia. Aliás, a estrutura foi toda feita em estaleiro, tendo sido depois transportada para o local. Depois temos o outro edifício, que é o volume de estar, onde estão as mesas. O objectivo era que fosse um volume muito simples, quase como uma moldura sobre a paisagem. Portanto, um é o dobro do outro e no maior era importante vencer um grande vão sem pilares. Existe um módulo e o edifício tem o maior módulo possível que conseguimos obter na construção, de forma que também a laje fosse fina, já que é um vão de 18 metros de comprimento. Todo o exercício é também tornar abstracta esta moldura, abstracta no sentido de ter a mesma espessura a toda a volta, o que foi estudado no limite do mínimo, criando uma linguagem mais esbelta onde, ao mesmo tempo, coubessem todas as infra-estruturas, os ares-condicionados, a luz...
Francisco Vieira de Campos_ Aqui há sempre uma questão de águas, a água é o que define a espessura. Para além do vão, para além das condicionantes do concurso, deram-nos uma área restrita, na borda do rio. Nós tivemos que aliar isso à questão estrutural, que é a base. Parece tudo muito simples, mas é tudo muito complicado lá por dentro. O que acontece aqui é andarmos sempre nos limites. No fundo, é na cobertura que se define a altura do pavimento. Portanto, tinha que se fazer um esforço para conseguir a cobertura mínima
CG_ E este objecto também é, de algum modo, estranho ao lugar, porque são edifícios construídos em margens e as margens são sempre espaços públicos, espaços de ninguém, espaços de toda a gente, pelo que entendemos que, ao construir numa margem, o edifício não deve ter um carácter de construção perene, deve ser uma construção efémera. Até porque Portugal é o país em que as margens mais cedo foram reconhecidas como do domínio público. Os edifícios, os equipamentos, foram sempre entendidos como algo que não pertence ao lugar, e o facto de irmos buscar estas imagens abstractas tem a ver com essa intenção. De soltar-se do chão, de pousar. Até porque estes bares estão sempre a ser concessionados por pouco tempo, cinco, seis anos. Depois são retirados, desmontados, o que faz com que, desde o princípio, sejam projectos especiais. Isso também permite que aqueles regulamentos que obrigam ao cumprimento de certas normas, como ter 3 metros de pé direito, possam ser subvertidos. Então, o pé direito fez-se baixo, porque as pessoas estariam sentadas, o que é mais confortável, mais acolhedor e, ao mesmo tempo, não se torna uma barreira para a vista.
FVC_ Também vem muito da experiência do Café do Cais, que tem 2.40 metros, não os 3 habituais, senão tinha ficado um volume ao alto, em vez de ficar mais horizontal. O que nós tentámos foi criar um espaço que convidasse à sedução, ao espaço lúdico, às vistas... No fundo, andamos sempre nesses limites, a subverter esses limites. Houve uma altura em que começámos a questionar se esta testa aguentava com mais alguma altura, pelo que houve uma altura da execução em que estivemos a discutir centímetros. Parece ridículo, mas é uma questão de isto aguentar ou não a ideia. Até porque isto está tudo feito de uma forma modular...
CG_ ... que também viemos buscar aos elementos que estão pré-fabricados. Os foles são elementos que já existem, as chapas também. Temos então uma moldura sobre a paisagem, em que o vidro é simultaneamente um elemento reflectante e transparente.
Relativamente à transparência das peças...
FVC_ Aqui, o vidro era fundamental. O que nos interessava era que houvesse uma protecção a sul, relativamente ao sol e à passagem de pessoas, mas que deixasse ver, que não fosse totalmente opaca, ideias que no fundo estão aliadas à vivência do dia e à vivência da noite e aos seus ambientes próprios.
CG_ Ver e serem vistos. Transparente, mas também podendo ser uma pele. Também achámos que para fazer um espaço agradável para bar, o corpo não podia ser completamente uma roulotte. Portanto, abrimos os dois topos menores e, ao mesmo tempo, usámos um vidro muito escuro, reflectante, de forma que de fora conseguíssemos uma leitura de parede, uma película. Temos assim transparência e opacidade. Se bem que a opacidade, à noite, desapareça, porque a luz artificial anula. É completamente diferente de noite e de dia. Outra questão que achamos bastante importante é o facto de todos os elementos estarem arrumados nos lados, tal como num avião. Todos os elementos no corpo de serviços soltam-se do espaço central de forma a que todos os serviços, casas de banho, arrumos, estejam de lado e de forma a que esteja sempre tudo arrumado.
De facto, um dos aspectos mais evidentes desta obra é o seu carácter de peças unitárias, com todos os componentes meticulosamente integrados...
FVC_ Existe esta lógica do espaço pequeno que tem de ficar todo arrumado e que tem de ter todas as condições. No fundo, o esquema é como um avião. Circulas no centro e tens tudo arrumado para os lados. Num barco é exactamente a mesma coisa, o lastro está sempre dos lados, consegues sempre circular ao meio, até por uma questão de equilíbrio. É como se fosse um atrelado de um camião preso ao eixo. Está aqui um eixo onde se circula ao meio, que distribui para os lados. Eu também vejo isto como sendo um objecto de design, como quando se vai a um stand de automóveis, que tem a mesma marca ou o mesmo modelo mas com vários motores. E há o carro, o carrinho e o carrão. Eu vejo isto um pouco como isto: se é preciso pôr mais gente, então tira-se esse reboque e mete-se aí outro com mais dez metros. Isto acaba por ser um tipo de obra em que tudo é essencial. É como num avião, não há perdas que vão para dentro de um avião. Não põem lá um móvel – tudo o que está lá é preciso para alguma coisa. Nos barcos é exactamente a mesma coisa, tudo é estritamente funcional e tudo tem que ser ergonómico. Está um pouco aliado ao movimento. Num barco e num avião, porque oscilam, todas as coisas precisam de ser presas, não existem objectos soltos. O que nós tentámos fazer foi começar a entender o que é esta espessura, que, para além de ser uma condição estrutural para aguentar o tamanho deste vão, é também muito útil para incorporar tudo. Não era para ter ar condicionado, mas arranjou-se espaço para conseguir ter ar condicionado, ter a luz embutida... Tudo começa por ser um pouco como os aviões, tudo é integrado.
Essa alusão aos meios de transporte aparece muito nos Bares de Gaia. E a verdade é que, enquanto que no Café do Cais havia um certo carácter provisório do equipamento, aqui vai-se muito mais longe e do provisório passa-se à ideia de quase mobilidade, como se fosse uma resposta literal ao problema da efemeridade do equipamento. Inclusivamente, na exposição Influx1.0 havia um vídeo do transporte das várias peças pré fabricadas até ao local de implantação...
FVC_ De facto, a ideia base partiu daí. Outra coisa que acontece é que a margem do lado norte, do Porto, da Ribeira, é uma margem consolidada, que está a uma cota mais elevada, enquanto que aqui a ideia da água começar a subir levou-nos intuitivamente a um objecto mais precário, mais móvel...
CG_ Nós gostávamos mesmo que este fosse rebocado. Tirar a carruagem do comboio e levá-la. O volume mais pequeno é também o mais dispendioso, onde estão as partes técnicas todas. E se houver uma cheia é possível retirá-lo. Daí o fole, a questão da ligação descartável, em que se pode tirar e voltar a pôr exactamente como foi posto. Basta uma grua e põe-se. Enquanto que o outro volume não tem máquinas, pelo que é menos preocupante. Também existe a questão do reaproveitamento. Pode-se reaproveitar, pré-fabricando. Já que é um investimento que de certa forma que eles têm de pagar, e assim podiam desmontar e montar noutro local e comprometemo-nos a resolver tudo com esta mancha, para que pudessem transportar num camião, daí o limite dos quatro metros que permitia essa possibilidade no futuro.
Outro aspecto presente nesta e na maioria das vossas obras é exactamente o recurso constante a elementos pré-fabricados. É algo evidente também no projecto para a sede da Pré-Gaia. É apenas uma resposta ao programa ou é também uma questão formal?
CG_ Eu acho que é mais uma resposta ao programa e principalmente aos lugares. Mas são realmente aspectos presentes no nosso trabalho. Na Pré-Gaia, essa questão da pré-fabricação é óbvia. É um edifício pré-fabricado onde tentámos levar ao limite o facto de ser só um módulo e também de esse módulo poder ser transportado. É um elemento inteiro e é esse elemento que faz todo o edifício.
FVC_ O módulo aqui não é um módulo standard, é um módulo feito mais uma vez nos seus limites. Ou seja, é a viabilidade económica, por um lado – que é também o que está por detrás do Pavilhão das Belas-Artes, que é feito com painéis pré-fabricados – mas tendo sempre a ver com os limites. No fundo, nós desenvolvemos uma estrutura em U, que depois ia levar uma cobertura a estudar posteriormente. Mas a ideia base eram os U pré-fabricados com as dimensões nos limites que pudessem resolver os problemas em termos económicos e de espaço. Esta questão da pré-fabricação tem piada porque, enquanto que geralmente vamos ali ao catálogo escolher as peças que há no mercado, no projecto para a Pré-Gaia vamos arranjar a proporção para uma peça standard, que vai ser repetida e que vai fazer o edifício. É um pouco ao contrário.
CG_ Os programas para os jovens arquitectos são muitas vezes os programas efémeros. E nesse caso uma pessoa tem que trabalhar as questões da modelação, da pré-fabricação, da reciclagem e da montagem, que são temas de que gostamos imenso. Por exemplo, se por um lado há nos Bares de Gaia uma tectónica leve, construção de pele, por outro exige uma grande elaboração construtiva para se ter uma ideia de simplicidade final. No edifício da Pré-Gaia isso acontece quase automaticamente. Constrói-se com um só material, com uma só forma, que é o betão com um determinado molde. E é engraçado observar como, com a mesma forma, sempre uma caixa ou um U, mas com dois sistemas construtivos diferentes, um pode ser tão simples e o outro tão doloroso, tão sofisticado... Este trabalho da Pré-Gaia é muito estimulante por isso. Depois de termos sofrido muito (risos)... Neste caso, tentámos adequar a ideia ao sistema construtivo do betão. Numa construção de betão só há uma parede lisa, a outra é desperdiçada quando é pré-fabricado. Há sempre uma cofragem boa e uma má. O facto de se repetirem as paredes e o próprio U, faz com que no interior estejam sempre as paredes com bom acabamento, pelo que desde logo conseguimos resolver quase tudo com um só elemento. Também se joga um pouco com a ideia de repetição.
FVC_ Quando fizemos este projecto, começámos por ter muito cuidado com a proporção, com a medida e com a métrica. Uma obra bem proporcionada é quase como uma pessoa ser honesta. Aqui tentámos nitidamente ser o mais elementares e directos no sistema construtivo. É muito elementar na ideia, mas complicadíssimo do ponto de vista da programação em obra. Porque o módulo entra como um objecto acabado, que tem de vir acoplado com tudo, com as infra-estruturas todas. O que vai obrigar que todas as especialidades trabalhem ao mesmo tempo em estaleiro. O que é bastante interessante.
CG_ Tem que se jogar sempre com todas as componentes. Provavelmente, aqui é mais importante o edifício ser abstracto por estar num sítio tão forte que só sendo muito abstracto é que se solta e não entra em comparações nem em conflitos, autonomizando-se.
Olhando para as fotografias do projecto da Pré-Gaia é difícil não nos lembrarmos de algumas obras de Donald Judd. Que influências existem na vossa obra?
CG_ Gostamos muito do Donald Judd, isso é verdade. E o Souto Moura marcou-nos muito.
FVC_ Bastante. Principalmente o modo como ele abordava as questões, muito pragmático e muito frontal. O Eduardo marca e marcou-me muito por essa ideia inicial. No fundo, o primeiro esquisso já tem a solução final. Por mais esquissos que se façam, por mais voltas que se dêem, tem piada ver os cadernos do processo em que no primeiro desenho está quase tudo.
CG_ Aliás marcou muito a nossa geração essa ideia de que no princípio está a síntese. Há sempre uma ideia forte. Os resultados são muito diferentes mas o método é muito semelhante. Outra pessoa que nos marcou imenso foi o Fernando Pinto Coelho. Porque, além de arquitecto, é artista plástico e tem uma visão extremamente criativa em relação a qualquer projecto. É quase um grau zero no modo de o abordar. Nós tivemos a oportunidade de fazer aquela loja de Braga com o Fernando Pinto Coelho e foi fantástico. Mesmo em relação à formação da escola é um pouco um outsider. Há nele uma grande disponibilidade para abordar um problema como se fosse a primeira vez que o está a resolver. Há uma disponibilidade de ver o problema de pernas para o ar.
Há, na vossa obra, uma preocupação fundamental com a pele do edifício?
CG_ Neste não. Mas, geralmente, essa preocupação surge porque o que interessa é que o edifício tem que cumprir uma função no sítio em que está, embora ele se solte completamente e, se calhar, isso é mais importante do que certos pruridos construtivos. E estas peles, estas camuflagens, fazem sentido quando se opta por determinados sistemas construtivos em determinados locais.
Existe um aparente paradoxo na vossa obra relativamente ao lugar. Ao mesmo tempo que os edifícios procuram ter um impacto mínimo na paisagem, acabam por se tornar objectos autónomos, com um individualidade muito forte...
FVC_ De certo modo, o próprio sítio onde se inserem já os torna autónomos.
CG_ Nós procuramos que sejam autónomos, que tenham uma linguagem própria, que tenham valor como objecto. Estou a falar mais destes trabalhos, dos bares, da Prégaia. Um pouco também nas Belas Artes... Essa autonomia resulta provavelmente da procura de alguma abstracção. Se calhar, aquilo que parece o resultado, é um princípio.
Num artigo [Mil Folhas, Público, 11.05.02] que escreveu sobre a exposição do Influx1.0, o Jorge Figueira dizia, referindo-se ao Café do Cais e aos Bares da Margem Fluvial de Vila Nova de Gaia, que onde antes existia manipulação formal, gesto mais do que verificação experimental agora há elaboração e discursividade, onde antes havia intuição agora há fundamentalmente dedução. Concordam com esta análise, consideram que já se pode dividir o vosso percurso em duas fases?
CG_ De certa forma achamos que há uma evolução. Por isso é que, no outro dia, o Dan Blain dizia que era óptimo trabalhar para os arquitectos. Porque, enquanto os artistas plásticos tinham uma ideia aos 30 anos e aos 60 continuam a reter a mesma ideia, os arquitectos, à medida que evoluem, à medida que o tempo passa e vão sofrendo e se vão debruçando sobre as coisas, vão aperfeiçoando-se e vão tendo percursos mais positivos, se forem conscienciosos, e nesse sentido acho que houve alguma destreza, ou um maior à-vontade, para trabalhar com um programa com que já se tinha trabalhado. Eu acho realmente que é bom os arquitectos experimentarem e terem muita obra. Quando fizemos os Bares, depois de já termos feito o Café do Cais, já estava tudo interiorizado, já sabíamos o que era preciso e o que não era, como é que gostaríamos de fazer. Tem a ver com alguma maturidade. O arquitecto não se faz logo. Para uma obra ser mais autêntica, muita coisa precisa ser interiorizada.
FVC_ Há, de facto, uma parte mais intuitiva e outra mais emotiva, mas não propriamente no objecto acabado... Há sempre um percurso até a obra ser executada. Os Bares, por exemplo têm a particularidade de nos reportarmos à mobilidade e de termos ido buscar muitas referências fora da arquitectura. E o próprio local... Que era uma coisa que nós estávamos sempre a questionar, o facto de estarmos a trabalhar sobre as duas margens do mesmo rio, do que era a nossa resposta de um lado e do que era a nossa resposta do outro.
Como é que lidam com a etiqueta de minimalistas que vos é geralmente aplicada?
CG_ Eu nem sabia que tínhamos essa etiqueta, mas posso imaginar. Qualquer etiqueta é redutora e não me identifico de todo com essa, nem o Francisco. O que nós tentamos é ir ao limite com o problema. Quando temos uma questão para resolver, tentamos ir até às últimas consequências. Por exemplo, nos Bares, tentamos ir até ao limite com a solução daquilo que temos que resolver e não propriamente com a questão do minimal, da ideia do mínimo. No fundo, acho precisamente o contrário. Cada um tem a sua maneira de trabalhar mas, por exemplo, acho o Francisco extremamente expressivo, extremamente ao contrário, acho que há até uma intrusão de elementos e de cores, experimenta-se bastante de forma a que o projecto seja adequado àquele sítio concreto.
FVC_ No fundo, o resultado... O minimal está conotado com a depuração da forma, mas nunca partimos disso. Não é o objectivo.
CG_ Há casos em que é mesmo o objectivo. Por exemplo, naquele caso aquele pórtico era importante que fosse um pórtico. Mas no outro é completamente expressivo. Estamos numa altura em que se pode fazer tudo e tentamos apropriarmo-nos da melhor metodologia e da melhor expressão e da melhor linguagem para resolver cada questão. Acho que nos Bares de Gaia coloca-se essa questão. Por um lado, muito parado, muito minimal. Por outro, completamente maximizado, muito expressivo. E é isso que nos interessa hoje em dia. É uma grande liberdade e uma grande sorte trabalhar aqui nesta altura, porque temos todas as possibilidades. Podemos fazer tudo.
FVC_ Houve a hipótese de construirmos isto tudo em fibra de vidro. Levava-nos a um processo construtivo completamente diferente e a sua parte visível ia provavelmente dar-nos uma coisa parecida, mas por dentro a sua parte de desenho e de execução era completamente diferente. É a questão da construção em Portugal. Isto devia ter sido feito em Aveiro em fibra de vidro, muito leve, era muito mais fácil o transporte. Vinte pessoas puxavam isso para o lado e punham numa camioneta. Assim não. Pesa várias toneladas e é preciso um guincho. A forma, se calhar, resultava parecida. Estou a dizer que, às vezes, a pesquisa da construção e o facto de ser minimal é inerente ao nosso processo mental. A minha experiência em andar de barco, de todos os movimentos, do nosso equilíbrio, do nosso momento de inércia, tudo isso está muito presente numa obra destas. O sentido do equilíbrio das peças, da proporção. Quando uma pessoa olha para um barco parece simples mas é extremamente complexo.
Mas há na vossa obra uma procura de dar um certo sentido poético às obras, ou seja, fazer poesia mineral, como dizia o Souto Moura?
CG_ A ideia é lindíssima. Tentar, tentamos todos (risos). E eu acho que o Souto Moura tentou. Principalmente nessa questão de que só a palavra exacta é de utilidade pública e na questão do que é essencial. E também na questão da regra e da proporção da regra. Para haver subversão tem que haver regra. E por isso é que trabalhamos nas regras o máximo de elementos rígidos e depois, quando dominamos muito bem a grelha e as regras, é que gostamos de fazer pequenas subversões. Acreditamos um pouco nessa maneira de evoluir.
FVC_ Essa subversão, no fundo, está dissimulada no todo. Esta forma de nós sermos mais expressivos... É muito da parte construtiva, não tanto do que é visível. E mesmo dos programas. Por vezes, um pequeno gesto leva logo a autênticas revoluções.
Existe uma metodologia de trabalho ou existe um percurso diferenciado em cada trabalho?
FVC_ Eu acho que já há uma metodologia de trabalho. Acho que o facto de partirmos muito inicialmente de uma ideia muito convicta leva-nos a estabelecer um determinado tipo de regras à partida e a andarmos dentro delas.
CG_ Nós formámo-nos numa altura em que era muito importante para nós, como contra-corrente, que os projectos não surgissem do esquisso, da procura, de um arquétipo do que poderia vir a ser, ou seja, a procura a partir do esquisso como nos ensinaram. Não acreditávamos nesse método de projecto. Então, a ideia estava no início, o conceito era já uma síntese inicial e procurávamos todos que a ideia fosse forte e, a partir desse conceito inicial onde está tudo, começar a projectar. Agora as coisas estão mais descontraídas. Mas nos primeiros trabalhos que fazíamos eram sempre as ideias mais fortes que se pudessem inventar.
Como é que analisam o actual momento que se vive na arquitectura, em que a imagem parece suplantar o real em termos de importância e de impacto?
CG_ Preocupa-nos imenso. Porque nos primeiros anos, o que era importante para nós era construir. E nota-se cada vez mais que há uma maneira de fazer para concursos e uma maneira de fazer para se construir. E acho perigoso, porque quando se faz um concurso interessa ganhar e fazer boas apresentações e utiliza-se uma linguagem paralela que não é a da arquitectura, que é uma linguagem muito gráfica. E muitas vezes os bons projectos em concurso não são bons projectos na realidade. E de certa forma já experimentámos isso. O desejo de construção num concurso não é muito grande. Porque num concurso fazer uma apresentação bem feita é que é o objectivo. E depois há a questão das revistas, das publicações... A presença da imagem hoje é muitíssimo forte. Hoje em dia acho que há arquitectos de concurso que não constróem nem têm ideia de construir. Por ser tão desgastante. Ganhar um concurso é óptimo. Mas depois é tão desgastante pôr aquilo a funcionar... E acho que há uma quebra, uma completa inversão dos valores. Para construir, chega a ser preferível este percurso de pequenas obras. Mas cada um tem a sua opção. Mas, de certa forma, arquitectura é construir, é viver espaços. Mesmo nas faculdades dá-se uma importância exagerada aos painéis de apresentação porque há uma concorrência enorme, há cada vez mais arquitectos e é assim que se chama a atenção. Mas é muito complicado, porque se calhar não é isso que determina o melhor projecto.
FVC_ Há também outra questão, ligada às novas tecnologias de execução do processo de desenho. Nós tivemos uma escola em que todo o processo de desenho era feito à unha, que é uma coisa que nos deu uma certa experiência em relação à forma como se constróem as coisas. Hoje em dia, o que eu vejo muito é que se opta muito por tirar o traço e pôr a mancha.
CG_ E a questão das artes gráficas... a questão do desejo da imagem. No processo de trabalho, a imagem e as formas de representação do desenho não devem tirar o desejo da obra construída. E muitas vezes temos cuidado para que a imagem não se esgote em si mesma e a imagem é um desafio como forma de experimentar.
Setembro 2002
por Pedro Jordão e Susana Faria
Quais são os gestos fundamentais nos Bares da Margem Fluvial de Vila Nova de Gaia?
Cristina Guedes_ Começamos por dois volumes. Um onde tentamos explorar um sistema construtivo muito leve e muito fino com base na carlinga dos aviões ou dos barcos, que é o volume de serviços. É onde estão as infra-estruturas mais caras e, no caso de uma cheia, pode eventualmente ser removido. É um pouco essa ideia. Aliás, a estrutura foi toda feita em estaleiro, tendo sido depois transportada para o local. Depois temos o outro edifício, que é o volume de estar, onde estão as mesas. O objectivo era que fosse um volume muito simples, quase como uma moldura sobre a paisagem. Portanto, um é o dobro do outro e no maior era importante vencer um grande vão sem pilares. Existe um módulo e o edifício tem o maior módulo possível que conseguimos obter na construção, de forma que também a laje fosse fina, já que é um vão de 18 metros de comprimento. Todo o exercício é também tornar abstracta esta moldura, abstracta no sentido de ter a mesma espessura a toda a volta, o que foi estudado no limite do mínimo, criando uma linguagem mais esbelta onde, ao mesmo tempo, coubessem todas as infra-estruturas, os ares-condicionados, a luz...
Francisco Vieira de Campos_ Aqui há sempre uma questão de águas, a água é o que define a espessura. Para além do vão, para além das condicionantes do concurso, deram-nos uma área restrita, na borda do rio. Nós tivemos que aliar isso à questão estrutural, que é a base. Parece tudo muito simples, mas é tudo muito complicado lá por dentro. O que acontece aqui é andarmos sempre nos limites. No fundo, é na cobertura que se define a altura do pavimento. Portanto, tinha que se fazer um esforço para conseguir a cobertura mínima
CG_ E este objecto também é, de algum modo, estranho ao lugar, porque são edifícios construídos em margens e as margens são sempre espaços públicos, espaços de ninguém, espaços de toda a gente, pelo que entendemos que, ao construir numa margem, o edifício não deve ter um carácter de construção perene, deve ser uma construção efémera. Até porque Portugal é o país em que as margens mais cedo foram reconhecidas como do domínio público. Os edifícios, os equipamentos, foram sempre entendidos como algo que não pertence ao lugar, e o facto de irmos buscar estas imagens abstractas tem a ver com essa intenção. De soltar-se do chão, de pousar. Até porque estes bares estão sempre a ser concessionados por pouco tempo, cinco, seis anos. Depois são retirados, desmontados, o que faz com que, desde o princípio, sejam projectos especiais. Isso também permite que aqueles regulamentos que obrigam ao cumprimento de certas normas, como ter 3 metros de pé direito, possam ser subvertidos. Então, o pé direito fez-se baixo, porque as pessoas estariam sentadas, o que é mais confortável, mais acolhedor e, ao mesmo tempo, não se torna uma barreira para a vista.
FVC_ Também vem muito da experiência do Café do Cais, que tem 2.40 metros, não os 3 habituais, senão tinha ficado um volume ao alto, em vez de ficar mais horizontal. O que nós tentámos foi criar um espaço que convidasse à sedução, ao espaço lúdico, às vistas... No fundo, andamos sempre nesses limites, a subverter esses limites. Houve uma altura em que começámos a questionar se esta testa aguentava com mais alguma altura, pelo que houve uma altura da execução em que estivemos a discutir centímetros. Parece ridículo, mas é uma questão de isto aguentar ou não a ideia. Até porque isto está tudo feito de uma forma modular...
CG_ ... que também viemos buscar aos elementos que estão pré-fabricados. Os foles são elementos que já existem, as chapas também. Temos então uma moldura sobre a paisagem, em que o vidro é simultaneamente um elemento reflectante e transparente.
Relativamente à transparência das peças...
FVC_ Aqui, o vidro era fundamental. O que nos interessava era que houvesse uma protecção a sul, relativamente ao sol e à passagem de pessoas, mas que deixasse ver, que não fosse totalmente opaca, ideias que no fundo estão aliadas à vivência do dia e à vivência da noite e aos seus ambientes próprios.
CG_ Ver e serem vistos. Transparente, mas também podendo ser uma pele. Também achámos que para fazer um espaço agradável para bar, o corpo não podia ser completamente uma roulotte. Portanto, abrimos os dois topos menores e, ao mesmo tempo, usámos um vidro muito escuro, reflectante, de forma que de fora conseguíssemos uma leitura de parede, uma película. Temos assim transparência e opacidade. Se bem que a opacidade, à noite, desapareça, porque a luz artificial anula. É completamente diferente de noite e de dia. Outra questão que achamos bastante importante é o facto de todos os elementos estarem arrumados nos lados, tal como num avião. Todos os elementos no corpo de serviços soltam-se do espaço central de forma a que todos os serviços, casas de banho, arrumos, estejam de lado e de forma a que esteja sempre tudo arrumado.
De facto, um dos aspectos mais evidentes desta obra é o seu carácter de peças unitárias, com todos os componentes meticulosamente integrados...
FVC_ Existe esta lógica do espaço pequeno que tem de ficar todo arrumado e que tem de ter todas as condições. No fundo, o esquema é como um avião. Circulas no centro e tens tudo arrumado para os lados. Num barco é exactamente a mesma coisa, o lastro está sempre dos lados, consegues sempre circular ao meio, até por uma questão de equilíbrio. É como se fosse um atrelado de um camião preso ao eixo. Está aqui um eixo onde se circula ao meio, que distribui para os lados. Eu também vejo isto como sendo um objecto de design, como quando se vai a um stand de automóveis, que tem a mesma marca ou o mesmo modelo mas com vários motores. E há o carro, o carrinho e o carrão. Eu vejo isto um pouco como isto: se é preciso pôr mais gente, então tira-se esse reboque e mete-se aí outro com mais dez metros. Isto acaba por ser um tipo de obra em que tudo é essencial. É como num avião, não há perdas que vão para dentro de um avião. Não põem lá um móvel – tudo o que está lá é preciso para alguma coisa. Nos barcos é exactamente a mesma coisa, tudo é estritamente funcional e tudo tem que ser ergonómico. Está um pouco aliado ao movimento. Num barco e num avião, porque oscilam, todas as coisas precisam de ser presas, não existem objectos soltos. O que nós tentámos fazer foi começar a entender o que é esta espessura, que, para além de ser uma condição estrutural para aguentar o tamanho deste vão, é também muito útil para incorporar tudo. Não era para ter ar condicionado, mas arranjou-se espaço para conseguir ter ar condicionado, ter a luz embutida... Tudo começa por ser um pouco como os aviões, tudo é integrado.
Essa alusão aos meios de transporte aparece muito nos Bares de Gaia. E a verdade é que, enquanto que no Café do Cais havia um certo carácter provisório do equipamento, aqui vai-se muito mais longe e do provisório passa-se à ideia de quase mobilidade, como se fosse uma resposta literal ao problema da efemeridade do equipamento. Inclusivamente, na exposição Influx1.0 havia um vídeo do transporte das várias peças pré fabricadas até ao local de implantação...
FVC_ De facto, a ideia base partiu daí. Outra coisa que acontece é que a margem do lado norte, do Porto, da Ribeira, é uma margem consolidada, que está a uma cota mais elevada, enquanto que aqui a ideia da água começar a subir levou-nos intuitivamente a um objecto mais precário, mais móvel...
CG_ Nós gostávamos mesmo que este fosse rebocado. Tirar a carruagem do comboio e levá-la. O volume mais pequeno é também o mais dispendioso, onde estão as partes técnicas todas. E se houver uma cheia é possível retirá-lo. Daí o fole, a questão da ligação descartável, em que se pode tirar e voltar a pôr exactamente como foi posto. Basta uma grua e põe-se. Enquanto que o outro volume não tem máquinas, pelo que é menos preocupante. Também existe a questão do reaproveitamento. Pode-se reaproveitar, pré-fabricando. Já que é um investimento que de certa forma que eles têm de pagar, e assim podiam desmontar e montar noutro local e comprometemo-nos a resolver tudo com esta mancha, para que pudessem transportar num camião, daí o limite dos quatro metros que permitia essa possibilidade no futuro.
Outro aspecto presente nesta e na maioria das vossas obras é exactamente o recurso constante a elementos pré-fabricados. É algo evidente também no projecto para a sede da Pré-Gaia. É apenas uma resposta ao programa ou é também uma questão formal?
CG_ Eu acho que é mais uma resposta ao programa e principalmente aos lugares. Mas são realmente aspectos presentes no nosso trabalho. Na Pré-Gaia, essa questão da pré-fabricação é óbvia. É um edifício pré-fabricado onde tentámos levar ao limite o facto de ser só um módulo e também de esse módulo poder ser transportado. É um elemento inteiro e é esse elemento que faz todo o edifício.
FVC_ O módulo aqui não é um módulo standard, é um módulo feito mais uma vez nos seus limites. Ou seja, é a viabilidade económica, por um lado – que é também o que está por detrás do Pavilhão das Belas-Artes, que é feito com painéis pré-fabricados – mas tendo sempre a ver com os limites. No fundo, nós desenvolvemos uma estrutura em U, que depois ia levar uma cobertura a estudar posteriormente. Mas a ideia base eram os U pré-fabricados com as dimensões nos limites que pudessem resolver os problemas em termos económicos e de espaço. Esta questão da pré-fabricação tem piada porque, enquanto que geralmente vamos ali ao catálogo escolher as peças que há no mercado, no projecto para a Pré-Gaia vamos arranjar a proporção para uma peça standard, que vai ser repetida e que vai fazer o edifício. É um pouco ao contrário.
CG_ Os programas para os jovens arquitectos são muitas vezes os programas efémeros. E nesse caso uma pessoa tem que trabalhar as questões da modelação, da pré-fabricação, da reciclagem e da montagem, que são temas de que gostamos imenso. Por exemplo, se por um lado há nos Bares de Gaia uma tectónica leve, construção de pele, por outro exige uma grande elaboração construtiva para se ter uma ideia de simplicidade final. No edifício da Pré-Gaia isso acontece quase automaticamente. Constrói-se com um só material, com uma só forma, que é o betão com um determinado molde. E é engraçado observar como, com a mesma forma, sempre uma caixa ou um U, mas com dois sistemas construtivos diferentes, um pode ser tão simples e o outro tão doloroso, tão sofisticado... Este trabalho da Pré-Gaia é muito estimulante por isso. Depois de termos sofrido muito (risos)... Neste caso, tentámos adequar a ideia ao sistema construtivo do betão. Numa construção de betão só há uma parede lisa, a outra é desperdiçada quando é pré-fabricado. Há sempre uma cofragem boa e uma má. O facto de se repetirem as paredes e o próprio U, faz com que no interior estejam sempre as paredes com bom acabamento, pelo que desde logo conseguimos resolver quase tudo com um só elemento. Também se joga um pouco com a ideia de repetição.
FVC_ Quando fizemos este projecto, começámos por ter muito cuidado com a proporção, com a medida e com a métrica. Uma obra bem proporcionada é quase como uma pessoa ser honesta. Aqui tentámos nitidamente ser o mais elementares e directos no sistema construtivo. É muito elementar na ideia, mas complicadíssimo do ponto de vista da programação em obra. Porque o módulo entra como um objecto acabado, que tem de vir acoplado com tudo, com as infra-estruturas todas. O que vai obrigar que todas as especialidades trabalhem ao mesmo tempo em estaleiro. O que é bastante interessante.
CG_ Tem que se jogar sempre com todas as componentes. Provavelmente, aqui é mais importante o edifício ser abstracto por estar num sítio tão forte que só sendo muito abstracto é que se solta e não entra em comparações nem em conflitos, autonomizando-se.
Olhando para as fotografias do projecto da Pré-Gaia é difícil não nos lembrarmos de algumas obras de Donald Judd. Que influências existem na vossa obra?
CG_ Gostamos muito do Donald Judd, isso é verdade. E o Souto Moura marcou-nos muito.
FVC_ Bastante. Principalmente o modo como ele abordava as questões, muito pragmático e muito frontal. O Eduardo marca e marcou-me muito por essa ideia inicial. No fundo, o primeiro esquisso já tem a solução final. Por mais esquissos que se façam, por mais voltas que se dêem, tem piada ver os cadernos do processo em que no primeiro desenho está quase tudo.
CG_ Aliás marcou muito a nossa geração essa ideia de que no princípio está a síntese. Há sempre uma ideia forte. Os resultados são muito diferentes mas o método é muito semelhante. Outra pessoa que nos marcou imenso foi o Fernando Pinto Coelho. Porque, além de arquitecto, é artista plástico e tem uma visão extremamente criativa em relação a qualquer projecto. É quase um grau zero no modo de o abordar. Nós tivemos a oportunidade de fazer aquela loja de Braga com o Fernando Pinto Coelho e foi fantástico. Mesmo em relação à formação da escola é um pouco um outsider. Há nele uma grande disponibilidade para abordar um problema como se fosse a primeira vez que o está a resolver. Há uma disponibilidade de ver o problema de pernas para o ar.
Há, na vossa obra, uma preocupação fundamental com a pele do edifício?
CG_ Neste não. Mas, geralmente, essa preocupação surge porque o que interessa é que o edifício tem que cumprir uma função no sítio em que está, embora ele se solte completamente e, se calhar, isso é mais importante do que certos pruridos construtivos. E estas peles, estas camuflagens, fazem sentido quando se opta por determinados sistemas construtivos em determinados locais.
Existe um aparente paradoxo na vossa obra relativamente ao lugar. Ao mesmo tempo que os edifícios procuram ter um impacto mínimo na paisagem, acabam por se tornar objectos autónomos, com um individualidade muito forte...
FVC_ De certo modo, o próprio sítio onde se inserem já os torna autónomos.
CG_ Nós procuramos que sejam autónomos, que tenham uma linguagem própria, que tenham valor como objecto. Estou a falar mais destes trabalhos, dos bares, da Prégaia. Um pouco também nas Belas Artes... Essa autonomia resulta provavelmente da procura de alguma abstracção. Se calhar, aquilo que parece o resultado, é um princípio.
Num artigo [Mil Folhas, Público, 11.05.02] que escreveu sobre a exposição do Influx1.0, o Jorge Figueira dizia, referindo-se ao Café do Cais e aos Bares da Margem Fluvial de Vila Nova de Gaia, que onde antes existia manipulação formal, gesto mais do que verificação experimental agora há elaboração e discursividade, onde antes havia intuição agora há fundamentalmente dedução. Concordam com esta análise, consideram que já se pode dividir o vosso percurso em duas fases?
CG_ De certa forma achamos que há uma evolução. Por isso é que, no outro dia, o Dan Blain dizia que era óptimo trabalhar para os arquitectos. Porque, enquanto os artistas plásticos tinham uma ideia aos 30 anos e aos 60 continuam a reter a mesma ideia, os arquitectos, à medida que evoluem, à medida que o tempo passa e vão sofrendo e se vão debruçando sobre as coisas, vão aperfeiçoando-se e vão tendo percursos mais positivos, se forem conscienciosos, e nesse sentido acho que houve alguma destreza, ou um maior à-vontade, para trabalhar com um programa com que já se tinha trabalhado. Eu acho realmente que é bom os arquitectos experimentarem e terem muita obra. Quando fizemos os Bares, depois de já termos feito o Café do Cais, já estava tudo interiorizado, já sabíamos o que era preciso e o que não era, como é que gostaríamos de fazer. Tem a ver com alguma maturidade. O arquitecto não se faz logo. Para uma obra ser mais autêntica, muita coisa precisa ser interiorizada.
FVC_ Há, de facto, uma parte mais intuitiva e outra mais emotiva, mas não propriamente no objecto acabado... Há sempre um percurso até a obra ser executada. Os Bares, por exemplo têm a particularidade de nos reportarmos à mobilidade e de termos ido buscar muitas referências fora da arquitectura. E o próprio local... Que era uma coisa que nós estávamos sempre a questionar, o facto de estarmos a trabalhar sobre as duas margens do mesmo rio, do que era a nossa resposta de um lado e do que era a nossa resposta do outro.
Como é que lidam com a etiqueta de minimalistas que vos é geralmente aplicada?
CG_ Eu nem sabia que tínhamos essa etiqueta, mas posso imaginar. Qualquer etiqueta é redutora e não me identifico de todo com essa, nem o Francisco. O que nós tentamos é ir ao limite com o problema. Quando temos uma questão para resolver, tentamos ir até às últimas consequências. Por exemplo, nos Bares, tentamos ir até ao limite com a solução daquilo que temos que resolver e não propriamente com a questão do minimal, da ideia do mínimo. No fundo, acho precisamente o contrário. Cada um tem a sua maneira de trabalhar mas, por exemplo, acho o Francisco extremamente expressivo, extremamente ao contrário, acho que há até uma intrusão de elementos e de cores, experimenta-se bastante de forma a que o projecto seja adequado àquele sítio concreto.
FVC_ No fundo, o resultado... O minimal está conotado com a depuração da forma, mas nunca partimos disso. Não é o objectivo.
CG_ Há casos em que é mesmo o objectivo. Por exemplo, naquele caso aquele pórtico era importante que fosse um pórtico. Mas no outro é completamente expressivo. Estamos numa altura em que se pode fazer tudo e tentamos apropriarmo-nos da melhor metodologia e da melhor expressão e da melhor linguagem para resolver cada questão. Acho que nos Bares de Gaia coloca-se essa questão. Por um lado, muito parado, muito minimal. Por outro, completamente maximizado, muito expressivo. E é isso que nos interessa hoje em dia. É uma grande liberdade e uma grande sorte trabalhar aqui nesta altura, porque temos todas as possibilidades. Podemos fazer tudo.
FVC_ Houve a hipótese de construirmos isto tudo em fibra de vidro. Levava-nos a um processo construtivo completamente diferente e a sua parte visível ia provavelmente dar-nos uma coisa parecida, mas por dentro a sua parte de desenho e de execução era completamente diferente. É a questão da construção em Portugal. Isto devia ter sido feito em Aveiro em fibra de vidro, muito leve, era muito mais fácil o transporte. Vinte pessoas puxavam isso para o lado e punham numa camioneta. Assim não. Pesa várias toneladas e é preciso um guincho. A forma, se calhar, resultava parecida. Estou a dizer que, às vezes, a pesquisa da construção e o facto de ser minimal é inerente ao nosso processo mental. A minha experiência em andar de barco, de todos os movimentos, do nosso equilíbrio, do nosso momento de inércia, tudo isso está muito presente numa obra destas. O sentido do equilíbrio das peças, da proporção. Quando uma pessoa olha para um barco parece simples mas é extremamente complexo.
Mas há na vossa obra uma procura de dar um certo sentido poético às obras, ou seja, fazer poesia mineral, como dizia o Souto Moura?
CG_ A ideia é lindíssima. Tentar, tentamos todos (risos). E eu acho que o Souto Moura tentou. Principalmente nessa questão de que só a palavra exacta é de utilidade pública e na questão do que é essencial. E também na questão da regra e da proporção da regra. Para haver subversão tem que haver regra. E por isso é que trabalhamos nas regras o máximo de elementos rígidos e depois, quando dominamos muito bem a grelha e as regras, é que gostamos de fazer pequenas subversões. Acreditamos um pouco nessa maneira de evoluir.
FVC_ Essa subversão, no fundo, está dissimulada no todo. Esta forma de nós sermos mais expressivos... É muito da parte construtiva, não tanto do que é visível. E mesmo dos programas. Por vezes, um pequeno gesto leva logo a autênticas revoluções.
Existe uma metodologia de trabalho ou existe um percurso diferenciado em cada trabalho?
FVC_ Eu acho que já há uma metodologia de trabalho. Acho que o facto de partirmos muito inicialmente de uma ideia muito convicta leva-nos a estabelecer um determinado tipo de regras à partida e a andarmos dentro delas.
CG_ Nós formámo-nos numa altura em que era muito importante para nós, como contra-corrente, que os projectos não surgissem do esquisso, da procura, de um arquétipo do que poderia vir a ser, ou seja, a procura a partir do esquisso como nos ensinaram. Não acreditávamos nesse método de projecto. Então, a ideia estava no início, o conceito era já uma síntese inicial e procurávamos todos que a ideia fosse forte e, a partir desse conceito inicial onde está tudo, começar a projectar. Agora as coisas estão mais descontraídas. Mas nos primeiros trabalhos que fazíamos eram sempre as ideias mais fortes que se pudessem inventar.
Como é que analisam o actual momento que se vive na arquitectura, em que a imagem parece suplantar o real em termos de importância e de impacto?
CG_ Preocupa-nos imenso. Porque nos primeiros anos, o que era importante para nós era construir. E nota-se cada vez mais que há uma maneira de fazer para concursos e uma maneira de fazer para se construir. E acho perigoso, porque quando se faz um concurso interessa ganhar e fazer boas apresentações e utiliza-se uma linguagem paralela que não é a da arquitectura, que é uma linguagem muito gráfica. E muitas vezes os bons projectos em concurso não são bons projectos na realidade. E de certa forma já experimentámos isso. O desejo de construção num concurso não é muito grande. Porque num concurso fazer uma apresentação bem feita é que é o objectivo. E depois há a questão das revistas, das publicações... A presença da imagem hoje é muitíssimo forte. Hoje em dia acho que há arquitectos de concurso que não constróem nem têm ideia de construir. Por ser tão desgastante. Ganhar um concurso é óptimo. Mas depois é tão desgastante pôr aquilo a funcionar... E acho que há uma quebra, uma completa inversão dos valores. Para construir, chega a ser preferível este percurso de pequenas obras. Mas cada um tem a sua opção. Mas, de certa forma, arquitectura é construir, é viver espaços. Mesmo nas faculdades dá-se uma importância exagerada aos painéis de apresentação porque há uma concorrência enorme, há cada vez mais arquitectos e é assim que se chama a atenção. Mas é muito complicado, porque se calhar não é isso que determina o melhor projecto.
FVC_ Há também outra questão, ligada às novas tecnologias de execução do processo de desenho. Nós tivemos uma escola em que todo o processo de desenho era feito à unha, que é uma coisa que nos deu uma certa experiência em relação à forma como se constróem as coisas. Hoje em dia, o que eu vejo muito é que se opta muito por tirar o traço e pôr a mancha.
CG_ E a questão das artes gráficas... a questão do desejo da imagem. No processo de trabalho, a imagem e as formas de representação do desenho não devem tirar o desejo da obra construída. E muitas vezes temos cuidado para que a imagem não se esgote em si mesma e a imagem é um desafio como forma de experimentar.
Setembro 2002
