1.4.04

O MUNDO MUTANTE DOS ARCHIGRAM

A busca radical do ajuste perfeito entre habitante e habitação levou diversas vezes, ao longo do século XX, a questão do corpo na arquitectura ao limite, à utopia, como sucedeu nos anos 60 com os Archigram. A utopia é aqui o culminar do estudo da arquitectura a partir do espaço mínimo, vendo radicalmente a arquitectura como a segunda pele do corpo humano.

A arquitectura mutante dos Archigram parte da tentativa de garantir a adaptabilidade dos espaços às exigências naturais da evolução rápida das sociedades e das tecnologias que estas desenvolvem. Por detrás das suas experiências, revelaram-se sempre dois conceitos fundamentais: corpo e movimento. O ajuste perfeito do espaço ao corpo e o nomadismo dos edifícios. Ou a identificação total entre edifício e habitante. Cria-se uma simbiose em que cada necessidade do homem é servida: a sua subsistência, o seu prazer, a sua deslocação, a sua integração na sociedade, a sua liberdade.

Desde o projecto Plug-In City, os Archigram produziram uma série de protótipos de cápsulas, todos desenvolvidos nos anos 60 e início dos 70, que constituiriam a habitação do futuro. A cápsula deste projecto era uma unidade completamente pré-fabricada, totalmente ergonómica e eficaz no seu funcionamento. Todos os componentes estavam preparados para ser substituídos assim que se tornassem obsoletos. Este carácter industrial, de produção em série de cada elemento construtivo, estaria presente em toda a sua obra, o que era perfeitamente coerente com as suas posições sobre o futuro do homem, da arquitectura e, consequentemente, da cidade. Num mundo de constantes evoluções e substituições, deixa de haver lugar para o produto artesanal e exclusivo.

A cápsula da Plug-In City, apesar da sua reduzida dimensão, continha um programa de habitação completo. O único constrangimento era a obrigatoriedade de estar inserida numa torre, com milhares de outras cápsulas, no que era uma redefinição total da habitação na cidade. A noção de colectivo é de tal modo levada ao limite que o estilo de vida na cidade torna-se similar ao de um hotel, com repercussões inevitáveis na estrutura da própria sociedade. Os Archigram viam na cidade um organismo humano e era este organismo que construiria o homem do futuro. O homem deste futuro, aparentemente, deseja um espaço mínimo capaz de suprir todas as suas necessidades. Mas é um ser assexuado que racionaliza os seus desejos e vê na tecnologia a solução para todos os seus problemas.

As Gasket Homes são a segunda experiência dos Archigram neste campo. O gesto determinante é a libertação da torre do projecto anterior, dando uma maior liberdade de agregação das cápsulas, nomeadamente na extensão, agora virtualmente infinita. Mas as próprias cápsulas têm agora uma maior plasticidade, aproximando-se mais das curvas do corpo.

O definitivo passo em frente viria com a Walking City, cujo conceito de estruturas nómadas e simbióticas estaria na origem de estruturas de habitação intimamente ligadas ao corpo e aos seus atributos, entre os quais a locomoção e o envelhecimento. Se a Plug-In City e as suas cápsulas eram ainda estruturas de substituição, as novas estruturas são essencialmente híbridas, fundindo-se com o seu habitante. A Living Pod e o Auto-Environment são unidades literalmente móveis, passíveis de serem implantadas em qualquer lugar, sem qualquer alteração nas condições usufruídas pelo corpo que vive no interior da cápsula. Esta capacidade evolutiva é a antítese da noção corrente de edifício, na sua inércia e no seu domínio sobre o corpo.

A Living Pod, composta por uma cápsula viva, com partes insufláveis e extensíveis, e por máquinas acopladas, que corresponderiam a todas as funções requeridas pelo habitante, é uma estrutura orgânica que se comporta como uma extensão do corpo. É o verdadeiro início de uma arquitectura do útero que os Archigram continuariam a desenvolver, mas é ainda uma casa e não literalmente uma pele habitável, como sucederia com os exemplos máximos do Cushicle e do Suitaloon.

A única verdadeira diferença entre uma casa e a roupa que vestes é uma de tamanho – as tuas roupas formam uma pele individual e a tua casa permitirá qualquer número de pessoas nela. Ambas estão sujeitas a mudanças de moda e ambas cobrem em extensões distintas as nossas indecências – mas é interessante comparar como as peles que formam o habitáculo de uma casa são tradicionalmente permanentes, enquanto que as peles têxteis são removíveis/substituíveis para se adequarem a qualquer capricho do clima, fetiche sexual ou o-que-é-que-tens. Mas em princípio, um sobretudo é uma casa/é um carro quando um motor lhe é adicionado (1).

O Cushicle (cushion + vehicle) é a materialização deste princípio. Reúne três componentes: uma pele individual, como uma peça de roupa, que assegura a privacidade do corpo e a sua protecção contra as condições climatéricas e que, ao ser insuflada, se transforma numa chaise-longue coberta ou num pequeno compartimento; uma estrutura metálica de suporte, que funciona como um veículo (vehicle) de curto-alcance assente num sistema de colchões (cushion) de ar; e uma série de serviços de apoio, que asseguram as necessidades básicas, o entretenimento e as comunicações do habitante. Mais do que um veículo, o Cushicle é um ambiente completo e totalmente móvel, que se molda à vontade do habitante, que se veste como qualquer roupa. O gesto que realmente interessa reter é esse sentido têxtil do espaço, reduzido quase ao limite, quase até ao contacto com a epiderme humana.

O limite, ao ponto da quase coincidência com a pele do corpo, deu pelo nome de Suitaloon. Vestuário para habitar – ou se não fosse pelo meu Suitaloon teria que comprar uma casa (2). Este projecto parte do Cushicle para o radicalizar. O Suitaloon não é um mecanismo composto, mas uma unidade, um grande envelope que actua simultaneamente como embalagem do corpo, como meio de locomoção e como fonte de energia. O mecanismo permitiria a expansão do espaço, assim como a fusão de dois Suitaloons de pessoas diferentes.

Peter Reyner Banham, próximo das ideias dos Archigram, concebeu o projecto de uma bolha que envolveria o corpo, actuando como um envelope móvel, que substituiria o sentido convencional da arquitectura como edifício. O modo de concretizar o objectivo passaria pela criação de uma zona de conforto portátil, gerada por um mecanismo especial. Se o Suitaloon é o projecto de uma pele, o Bubble de Banham é praticamente a abolição da pele, com o corpo a ser protegido por sensações mais do que por uma estrutura.

O que é igualmente abolido nestes projectos, é a definição da arquitectura como um ambiente fixo para os corpos em movimento. O movimento aqui passa a ser também a da modificação do espaço e do corpo, mesmo que os corpos estejam parados. Quando o meu corpo está parado e a arquitectura se está a transformar, então eu estou em movimento. (...) Estou a movimentar-me porque o edifício onde me encontro está a deslocar-se. (...) Movo-me, porque o espaço em si mesmo está a ser alterado à minha volta. (...) Movo-me porque o meu corpo está ele próprio a ser reconstruído (3).


1. Michael Webb e David Green in COOK, Peter – Archigram, Princeton Architectural Press (1999): The only real difference between a house and the clothing you wear is one of size – your clothes form a one-man skin and your house will allow any number of people in it. Both are subject to changes of fashion and both cover up to differing extents one's indecencies – but it's interesting to compare how the skins that form the enclosure of a house are traditionally permanent while the clothing skins are removable/replaceable to suit any whim of climate, sexual fetish or what-have-you. But in principle an overcoat is a house/is a car when a motor's clipped on.
2. id., ibid.: Clothing for living in – or if it wasn't for my Suitaloon I would have to buy a house.
3. Mark Wigley, Nova Babilónia (entrevista por Joaquim Moreno e Pedro bandeira) in In Si(s)tu #0.2 (2001)
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