LEBBEUS WOODS: A PARTIR DAS CINZAS
A violência na arquitectura também pode ser a da destruição brutal dos corpos, como na Reconstrução Radical de Lebbeus Woods. Woods descreve a arquitectura como uma forma de guerra, considerando que ambas existem através da destruição e que a arquitectura deveria assumi-lo e aprender com isso. A arquitectura deve aprender a transformar a violência, do mesmo modo que a violência transformou a arquitectura (1).
Na sua óptica, a reconstrução do pós-guerra permite a criação de novas formas de arquitectura, incorporando a imagem dos edifícios em ruínas nessa nova estética – porque também é de estética que se trata, sendo em parte uma proposta cénica. É o projecto de uma nova pele. Não é coincidência que, nos seus escritos, Woods utilize termos médicos como cura, injecção, crosta e cicatriz, palavras que nos remetem para os corpos feridos. A cura de uma cidade destruída, como Sarajevo, um dos exemplos que aborda, passaria pela injecção de novas estruturas nos espaços esvaziados pela destruição, por novas construções que actuariam como crostas, e por cicatrizes, construções que fundiriam o novo e o velho.
A sua escolha das palavras merece-lhe o esclarecedor comentário: Crosta é uma palavra feia. Seria confortável encontrar metáforas agradáveis para descrever os processos de construção sobre as remanescências da guerra, mas iriam trair o carácter do trabalho a ser feito e as razões para o fazer. A arquitectura (...) não deveria temer a sua união com o que foi a mais baixa forma de manifestação humana, a horrível evidência da violência (2).
Woods começa onde tudo parece ter acabado: nos pedaços de tecido urbano destruídos pela guerra. Woods identifica-os como pontos de crise que darão o mote ao surgimento de novas sociedades, através de um esforço de criação do novo a partir do destruído. A destruição que a guerra inflige nas cidades vai muito para além da sua dimensão física. A guerra nivela as cidades, anula a sua complexidade multi-dimensional e substitui-a por uma polaridade de tudo-ou-nada, imposta por uma ideologia radical e pelas suas sobredeterminações racionais (3).
Após uma guerra, as ideologias vão geralmente de encontro ao desejo de reconstrução da população, numa tentativa de substituir o que se perdeu. No entanto, esse gesto acaba por afirmar o passado, formal e socialmente, em vez de procurar avidamente o futuro, o que é, de certo modo, contraditório com o próprio conceito de pós-guerra, de onde deveriam sempre emergir um novo tecido urbano e uma nova ordem social. Por outro lado, há habitualmente a tendência de renovar totalmente algumas parcelas destruídas, melhores, mais grandiosas do que o anteriormente existente, numa tentativa de reclamar o futuro.
É preciso recordar que o advento do Modernismo coincide precisamente com o fim da Primeira Grande Guerra, a que supostamente iria acabar com todas as guerras. Mais do que uma mera coincidência, este facto foi determinante. Não é coincidência que a tabula rasa que caracteriza a intervenção urbana dos modernistas surja na proximidade de um passado de violência, que ao mesmo tempo destruiu e deu espaço à utopia, legando a oportunidade de partir do zero, a oportunidade de recomeço. Oportunidade que aproveitaram para propor a substituição dos velhos e desordenados tecidos urbanos, as partes corruptas da cidade, por tecidos renovados de acordo com os seus princípios industriais de eficácia e salubridade. A violência foi sempre um bem essencial da modernidade.
Mas a proposta de Woods caminha numa direcção diferente. Woods não pretende construir a partir do passado ou do futuro, mas do presente. E o presente, num cenário pós-guerra, não é um antigo edifício intacto ou um edifício totalmente novo e moderno, mas um edifício destruídos pela explosão das bombas e pelos estilhaços das balas. O que se propõe é o respeito da forma na sua integridade, corporizando uma história que não deve ser negada. No seu estado destruído, [os edifícios] sugerem novas formas de pensamento e compreensão, e novas concepções de espaço que confirmam o potencial dos humanos de se integrarem no edifício, de serem unos e livres, fora de qualquer sistema totalitário predeterminado (4).
Não há qualquer intenção de celebrar ou simbolizar a destruição da ordem estabelecida, mas de aceitar com um certo orgulho a perda e o que de positivo pode daí resultar. Woods propõe diferentes abordagens na criação dos novos tecidos urbanos, ainda que o propósito seja sempre o mesmo, o de propiciar uma nova maneira de pensar, habitar e moldar o espaço.
Nos espaços esvaziados pela destruição, novas estruturas podem ser injectadas (5). Uma das abordagens possíveis é a de injectar nos espaços vazio novas estruturas, completas em si mesmas, sem qualquer intenção de se ligarem ao tecido destruído, assumindo a radical diferença entre o velho e o novo, que correspondem a formas totalmente distintas, não só em termos espaciais, mas também em termos de pensamento. A situação não é confortável. Pelo contrário, é deliberadamente exigente, violenta com o potencial utilizador.
São, na verdade, difíceis de ocupar e requerem criatividade de modo a poderem ser habitáveis. Não são pré-desenhadas, predeterminadas ou previsíveis. Não exercem qualquer controlo sobre os pensamentos ou comportamentos das pessoas [que sucede] pela confirmação de tipografias e programas de uso coercivos, de ideologias pré-estabelecidas com os seus planos para predominar nas actividades humanas em nome do reforço da unidade do significado e do material (6). Em vez disso, passa a estar disponível uma matriz sobre a qual podem ser criadas condições para uma nova forma de vida, uma vida intensamente experimental. É essa experiência do espaço que lhes irá dar carácter. Caso contrário, não passarão de espaços inúteis e desprovidos de sentido.
A crosta é outra possibilidade, actuando como uma primeira camada da reconstrução, protegendo o espaço interior pré-existente durante a transformação. Por sua vez, a cicatriz é uma intervenção mais profunda de reconstrução, que concilia o velho com o novo, indo mais longe do que a simples operação de cosmética. A cicatriz é um mecanismo de articulação de diferenças, permitindo que a partir dela se forme uma sociedade assente na individualidade e diferenças dos seus elementos, mais do que nas suas similaridades.
Esta é uma arquitectura nascida das cinzas, assumindo as ruínas: Arquitectura que se contorce e torce e se eleva e se prende no mais imprevisível momento, mas não martirizada ou sentimental ou patética, a frieza das suas superfícies resistindo ao conforto e ao calor – Arquitectura que se move, lenta ou rapidamente, delicada ou violentamente, resistindo à falsa garantia de estabilidade e à sua morte – (...) – Arquitectura que se inclina e torce, numa luta contínua contra a gravidade, contra o tempo, contra, contra, contra – Arquitectura bárbara, rude e insolente na sua vitalidade e orgulho (7).
Woods não procura estetizar a guerra (ainda que seja de algum modo inevitável), mas apenas assumir as suas consequências, as feridas abertas no tecido urbano e nos seus edifícios. A guerra é, no entanto, o fetiche, o que é ampliado pela ausência de um programa social rigoroso. Há uma certa vontade de cumprir a frase feita, fazendo das fraquezas, forças. Pegar na cidade estropiada e ver nela uma oportunidade de recomeço. Woods não propõe verdadeiros programas, mas lemas. Os habitantes têm uma aparente liberdade de se apropriarem da cidade, mas a verdade é que estão obrigados a essa liberdade, estão obrigados a conseguirem criar uma relação completamente nova com os novos espaços, o que é, no mínimo, paradoxal.
1. Lebbeus Woods, Radical Reconstruction, Princeton University Press (1997): Architecture must learn to transform violence, even as violence has transformed architecture.
2. id., ibid.: Scab is an ugly word. It would be comforting to find pleasant metaphors to describe the processes of building on the remnants of war, but they would betray the character of the work to be done, and the reasond to do it. Architecture (...) should not fear its union with what has been the lowest form of human manifestation, the ugly evidence of violence.
3. id., ibid.: all-or-nothing polarity imposed by radical ideology and its rational overdeterminations.
4. id., ibid.: in its integrity, embodying a history that must not be denied. In their damaged state they suggest new forms of thought and comprehension, and new conceptions of space that confirm the potential of the human to integrate with the building, to be whole and free outside any predetermined, totalitary system.
5. id., ibid.: In the spaces voided by destruction, new structures can be injected.
6. id., ibid.: They are, in fact, difficult to occupy, and require inventiveness in order to become habitable. They are not predesigned, pretermined or predictable. They assert no control over the thoughts and behaviour of people by confirming to typographies and coercive programmes of use, to pre-established ideologies and their plans to predominate in human actvities under the name of an enforced unity of meaning and material.
7. id., ibid.: Architecture writhing, twisting, rising, and pinioned to the more unpredictable moment, but not martyred, or sentimental, or pathetics, the coldness of its surfaces resisting comfort and warmth – Architecture that moves, slowly or quickly, delicately or violently, resisting the false assurance of stability and its death – (...) – Architecture bending and twisting, in a continual struggle against gravity, against time, against, against, against – Barbaric architecture, rough and insolent in its vitality and pride.
A violência na arquitectura também pode ser a da destruição brutal dos corpos, como na Reconstrução Radical de Lebbeus Woods. Woods descreve a arquitectura como uma forma de guerra, considerando que ambas existem através da destruição e que a arquitectura deveria assumi-lo e aprender com isso. A arquitectura deve aprender a transformar a violência, do mesmo modo que a violência transformou a arquitectura (1).
Na sua óptica, a reconstrução do pós-guerra permite a criação de novas formas de arquitectura, incorporando a imagem dos edifícios em ruínas nessa nova estética – porque também é de estética que se trata, sendo em parte uma proposta cénica. É o projecto de uma nova pele. Não é coincidência que, nos seus escritos, Woods utilize termos médicos como cura, injecção, crosta e cicatriz, palavras que nos remetem para os corpos feridos. A cura de uma cidade destruída, como Sarajevo, um dos exemplos que aborda, passaria pela injecção de novas estruturas nos espaços esvaziados pela destruição, por novas construções que actuariam como crostas, e por cicatrizes, construções que fundiriam o novo e o velho.
A sua escolha das palavras merece-lhe o esclarecedor comentário: Crosta é uma palavra feia. Seria confortável encontrar metáforas agradáveis para descrever os processos de construção sobre as remanescências da guerra, mas iriam trair o carácter do trabalho a ser feito e as razões para o fazer. A arquitectura (...) não deveria temer a sua união com o que foi a mais baixa forma de manifestação humana, a horrível evidência da violência (2).
Woods começa onde tudo parece ter acabado: nos pedaços de tecido urbano destruídos pela guerra. Woods identifica-os como pontos de crise que darão o mote ao surgimento de novas sociedades, através de um esforço de criação do novo a partir do destruído. A destruição que a guerra inflige nas cidades vai muito para além da sua dimensão física. A guerra nivela as cidades, anula a sua complexidade multi-dimensional e substitui-a por uma polaridade de tudo-ou-nada, imposta por uma ideologia radical e pelas suas sobredeterminações racionais (3).
Após uma guerra, as ideologias vão geralmente de encontro ao desejo de reconstrução da população, numa tentativa de substituir o que se perdeu. No entanto, esse gesto acaba por afirmar o passado, formal e socialmente, em vez de procurar avidamente o futuro, o que é, de certo modo, contraditório com o próprio conceito de pós-guerra, de onde deveriam sempre emergir um novo tecido urbano e uma nova ordem social. Por outro lado, há habitualmente a tendência de renovar totalmente algumas parcelas destruídas, melhores, mais grandiosas do que o anteriormente existente, numa tentativa de reclamar o futuro.
É preciso recordar que o advento do Modernismo coincide precisamente com o fim da Primeira Grande Guerra, a que supostamente iria acabar com todas as guerras. Mais do que uma mera coincidência, este facto foi determinante. Não é coincidência que a tabula rasa que caracteriza a intervenção urbana dos modernistas surja na proximidade de um passado de violência, que ao mesmo tempo destruiu e deu espaço à utopia, legando a oportunidade de partir do zero, a oportunidade de recomeço. Oportunidade que aproveitaram para propor a substituição dos velhos e desordenados tecidos urbanos, as partes corruptas da cidade, por tecidos renovados de acordo com os seus princípios industriais de eficácia e salubridade. A violência foi sempre um bem essencial da modernidade.
Mas a proposta de Woods caminha numa direcção diferente. Woods não pretende construir a partir do passado ou do futuro, mas do presente. E o presente, num cenário pós-guerra, não é um antigo edifício intacto ou um edifício totalmente novo e moderno, mas um edifício destruídos pela explosão das bombas e pelos estilhaços das balas. O que se propõe é o respeito da forma na sua integridade, corporizando uma história que não deve ser negada. No seu estado destruído, [os edifícios] sugerem novas formas de pensamento e compreensão, e novas concepções de espaço que confirmam o potencial dos humanos de se integrarem no edifício, de serem unos e livres, fora de qualquer sistema totalitário predeterminado (4).
Não há qualquer intenção de celebrar ou simbolizar a destruição da ordem estabelecida, mas de aceitar com um certo orgulho a perda e o que de positivo pode daí resultar. Woods propõe diferentes abordagens na criação dos novos tecidos urbanos, ainda que o propósito seja sempre o mesmo, o de propiciar uma nova maneira de pensar, habitar e moldar o espaço.
Nos espaços esvaziados pela destruição, novas estruturas podem ser injectadas (5). Uma das abordagens possíveis é a de injectar nos espaços vazio novas estruturas, completas em si mesmas, sem qualquer intenção de se ligarem ao tecido destruído, assumindo a radical diferença entre o velho e o novo, que correspondem a formas totalmente distintas, não só em termos espaciais, mas também em termos de pensamento. A situação não é confortável. Pelo contrário, é deliberadamente exigente, violenta com o potencial utilizador.
São, na verdade, difíceis de ocupar e requerem criatividade de modo a poderem ser habitáveis. Não são pré-desenhadas, predeterminadas ou previsíveis. Não exercem qualquer controlo sobre os pensamentos ou comportamentos das pessoas [que sucede] pela confirmação de tipografias e programas de uso coercivos, de ideologias pré-estabelecidas com os seus planos para predominar nas actividades humanas em nome do reforço da unidade do significado e do material (6). Em vez disso, passa a estar disponível uma matriz sobre a qual podem ser criadas condições para uma nova forma de vida, uma vida intensamente experimental. É essa experiência do espaço que lhes irá dar carácter. Caso contrário, não passarão de espaços inúteis e desprovidos de sentido.
A crosta é outra possibilidade, actuando como uma primeira camada da reconstrução, protegendo o espaço interior pré-existente durante a transformação. Por sua vez, a cicatriz é uma intervenção mais profunda de reconstrução, que concilia o velho com o novo, indo mais longe do que a simples operação de cosmética. A cicatriz é um mecanismo de articulação de diferenças, permitindo que a partir dela se forme uma sociedade assente na individualidade e diferenças dos seus elementos, mais do que nas suas similaridades.
Esta é uma arquitectura nascida das cinzas, assumindo as ruínas: Arquitectura que se contorce e torce e se eleva e se prende no mais imprevisível momento, mas não martirizada ou sentimental ou patética, a frieza das suas superfícies resistindo ao conforto e ao calor – Arquitectura que se move, lenta ou rapidamente, delicada ou violentamente, resistindo à falsa garantia de estabilidade e à sua morte – (...) – Arquitectura que se inclina e torce, numa luta contínua contra a gravidade, contra o tempo, contra, contra, contra – Arquitectura bárbara, rude e insolente na sua vitalidade e orgulho (7).
Woods não procura estetizar a guerra (ainda que seja de algum modo inevitável), mas apenas assumir as suas consequências, as feridas abertas no tecido urbano e nos seus edifícios. A guerra é, no entanto, o fetiche, o que é ampliado pela ausência de um programa social rigoroso. Há uma certa vontade de cumprir a frase feita, fazendo das fraquezas, forças. Pegar na cidade estropiada e ver nela uma oportunidade de recomeço. Woods não propõe verdadeiros programas, mas lemas. Os habitantes têm uma aparente liberdade de se apropriarem da cidade, mas a verdade é que estão obrigados a essa liberdade, estão obrigados a conseguirem criar uma relação completamente nova com os novos espaços, o que é, no mínimo, paradoxal.
1. Lebbeus Woods, Radical Reconstruction, Princeton University Press (1997): Architecture must learn to transform violence, even as violence has transformed architecture.
2. id., ibid.: Scab is an ugly word. It would be comforting to find pleasant metaphors to describe the processes of building on the remnants of war, but they would betray the character of the work to be done, and the reasond to do it. Architecture (...) should not fear its union with what has been the lowest form of human manifestation, the ugly evidence of violence.
3. id., ibid.: all-or-nothing polarity imposed by radical ideology and its rational overdeterminations.
4. id., ibid.: in its integrity, embodying a history that must not be denied. In their damaged state they suggest new forms of thought and comprehension, and new conceptions of space that confirm the potential of the human to integrate with the building, to be whole and free outside any predetermined, totalitary system.
5. id., ibid.: In the spaces voided by destruction, new structures can be injected.
6. id., ibid.: They are, in fact, difficult to occupy, and require inventiveness in order to become habitable. They are not predesigned, pretermined or predictable. They assert no control over the thoughts and behaviour of people by confirming to typographies and coercive programmes of use, to pre-established ideologies and their plans to predominate in human actvities under the name of an enforced unity of meaning and material.
7. id., ibid.: Architecture writhing, twisting, rising, and pinioned to the more unpredictable moment, but not martyred, or sentimental, or pathetics, the coldness of its surfaces resisting comfort and warmth – Architecture that moves, slowly or quickly, delicately or violently, resisting the false assurance of stability and its death – (...) – Architecture bending and twisting, in a continual struggle against gravity, against time, against, against, against – Barbaric architecture, rough and insolent in its vitality and pride.
